A Princesa Amarela
Ás vezes a gente inventa histórias pra explicar a realidade
Esse texto eu escrevi em 2012 e o encontrei organizando meu e-mail (antes eu usava o gmail como rascunho de ideias). Tem umas construções bem bobas, mas preferi não mexer muito nele. É um texto de um outro Mário, vamos deixar que ele conte essa história.
Catarina nasceu amarela. Amarelinha como o sol da manhã. Seus pais não entenderam e perguntaram aos médicos se era normal, se ela era saudável. Eles fizeram alguns testes e disseram que estava tudo bem com ela. Só era amarelinha mesmo.
Por mais lindo que seus cabeços amarelos pálidos fossem, tão pálidos que no reflexo da luz do sol cristalizavam num branco leitoso, Catarina não era feliz. Não era, pois sempre que aparecia na escola, as outras crianças apontavam e faziam piadas sobre sua aparência. Escondida no fundo da sala, as crianças tiravam sarro de seus grandes olhos cinzas, que constantemente estavam com as pálpebras avermelhadas devido a choros escondidos no banheiro.
Os raros momentos que Catarina sorria eram no fim da tarde, quando seu pai a pegava na escola e juntos eles passavam na loja de doces antes de ir pra casa.
Um belo dia seu pai não passou para busca-la. Ela esperou. Esperou até que umas das professoras, preocupada, ligou em sua casa. Sem retorno, a professora a levou até em casa. Chegando lá, encontrou sua avó que se preparava para sair de casa para busca-la. A avó ao vê-la, caiu em lágrimas e a abraçou. A professora logo entendeu o que se passava e se despediu.
Catarina perguntou por seu pai. Queria passar na loja de doces e comprar um novo bolinho baunilha que a moça da bomboniere disse que teria no dia anterior.
Sua avó disse que se pai havia sofrido um acidente ao voltar pra casa e que não poderia leva-la mais na loja de doces. Catarina não entendeu e disse que queria vê-lo. A avó disse que ele não estava mais aqui, que ele havia ido para outro lugar, muito longe dali. Ela insistiu e insistiu até que começou a chorar.
Seus olhos secos e inchados observavam um caixão cor de madeira lavada. Sentada ao lado da mãe, ela apenas, apenas chorava.
Seus raros momento de sorriso desapareceram. Os doces após o jantar também. Catarina não podia aceitar aquilo. Ela simplesmente não queria mais estar naquele lugar, num mundo onde todos tiravam sarro da sua cara. Num mundo onde a pessoa que ela mais amou foi levada para outro lugar.
Numa noite qualquer sua mãe caiu no sono no sofá da sala e Catarina decidiu ir até o quarto dos seus pais e pegar um dos remédios que sempre via sua mãe tomar.
Brincando no jardim de casa, ela viu uma mariposa lindíssima. Não sabia a espécie, mas era enorme e voava de maneira tão suave que Catarina desejou ter asas e desaparecer dali.
Querendo saber para onde tal criatura iria, ela a seguiu pelas calçadas de casa, até passar pela calçada do vizinho, pela esquina da loja de doces e pelo banco da praça que ficava do outro lado da cidade. Quando a grande mariposa pousou sobre uma pedra, Catarina se viu na entrada de um bosque, onde muros feito de Sequoias iam de uma ponta a outra ligando os infinitos. Havia apenas uma pequena abertura, por onde ela caminhou e atravessou a grande muralha de árvores.
As árvores saiam do solo com troncos de dezenas de metros de larguras e subiam até o infinito dos céus, curvando-se até que as pontas se tocassem e impedissem que o sol chegasse o chão. Um pequeno faixo de luz que entrava através da minúscula fresta da parede de madeira, criava uma trilha que sumia poucos passos a frente.
Ao adentrar, Catarina percebeu que alguns vultos caminhavam, meio distantes mas que a observava. Ela continuou caminhando em direção ao centro do bosque.
Devido a falta de luminosidade, ela dava passos longos e demorados. Um desses passos foi dado em cima de algo macio e peludo e subitamente um berro foi dado. Catarina, assustada, também berrou e deu um pulo pra trás. A sua frente, um ser alto, com mais de 3 metros de altura levantou e abriu seus olhos amarelos. Seus olhos cresciam e cresciam e quando ela achou que seria devorada por alguma criatura da floresta ela ouviu um grito de susto. A criatura gritou de um lado e Catarina gritou de outro e ambos ficaram se olhando por alguns segundos em silêncio.
Um segundo grito de outra criatura fora ouvido:
- Zé, sai dai! Ela vai te devorar!
- Eu? Apontou pra si. Eu não vou devorar ninguém.
- Ah meu deus, o monstro fala!
- Ei, ele que é o monstro, esbravejou Catarina enquanto procurava de onde vinha a voz.
- Quem aqui é monstro? Disse um bichinho peludo com menos de 1 metro de altura.
Laranja cor de bala, com uma faixa de pelos macios branca que saia da barriga e ia até o queixo e orelhas em pé, o “monstrinhos” estressado foi caminhando até Catarina. Atrás dele, outros monstrinhos menores caminhavam ressabiados, olhando para ela desconfiados. Era possível ver, além do olhar desconfiado e amedrontado, um certo encanto de todos os bichinhos ali em relação a ela. Menos do monstrinho Laranja, claro.
Todos se juntaram atrás do Laranja, até mesmo o Zé com seus 3 metros de puro medo, e ficaram olhando Catarina.
- Você está perdida? Disse um monstrinho sem pelos no corpo, com um topete engraçado de pelos brancos sobre a cabeça, uma barriga grande e pernas curtas.
- Não sei. Onde eu estou?
- Aqui é...
- Escuta aqui, esbravejou o Laranja. O que você quer da gente? Veio nos prender?
- Prender? Como assim? Eu estava seguindo uma mariposa e não percebi pra onde eu estava indo. Quando percebi eu estava na frente desse bosque.
- Humm, bom, você já pode voltar de onde veio.
Nesse momento pode-se ouvir passos pesados, que faziam a terra estremecer. No pequeno faixo de luz que passava pela fresta entre as arvores, podia-se ver sombras grandes, passando a cada segundo. Os passos ficavam mais altos e mais fortes. Era possível ouvir a respiração densa e longa na parte de fora das paredes. Um ar quente veio de fora seguido de um cheiro amargo.
- Droga, eles viram você entrar aqui, disse o Laranja.
- Quem? Quem são eles?
- São os...
- Xiiiiu! disse o Zé.
Os passos lá fora pararam. Uma enorme sombra estava na frente da fresta dos galhos. O silêncio lá fora era assustador.
Buummm! As arvores estremeceram. As folhas começaram a cair dos céus. Bummmm! As coisas lá de foram batiam e batiam nos troncos grossos das árvores. Catarina estava com o coração acelerado. Ela não sabia onde estava, nem quem eram aquelas criaturas estranhas. Ela sabia apenas que quem quer que fosse, não era algo bom.
Era possível ouvir garras enormes que se prendiam aos troncos e os balançavam e batiam.
Ela olhou para os monstrinhos estranhos e viu olhos de desespero. Eles estavam apavorados. Alguns eram novos, como bebes, agarrados as pernas da mãe. Outros se escondiam atrás do Zé, que tinha lágrimas nos olhos. O Laranja tentava disfarçar o medo e acalmava a todos.
- Eles vão entrar aqui mãe?
- Eles vão nos levar papai? Não quero que me separem de você.
- Calma, vai ficar tudo bem.
Catarina olhou para aqueles rostos sem esperança e amedrontados e uma força e coragem começou a surgir. Ela caminhou até a entrada do bosque, em direção a grande sombra negra com hálito amargo. Todos os monstrinhos pararam de falar e olharam pra ela. Catarina estava brilhando num amarelo quente que aquecia a todos ali dentro. Catarina caminhou um pouco e chegou a menos de um metro da sombra. De repente um grande olho vermelho surgiu. Tão grande quanto a entrada do bosque.
- Saia dai. Disse uma voz grossa como os trovões de fim de tarde da casa de campo da vovó.
- O que você quer com eles? Perguntou Catarina.
- Eu quero que eles saiam dai. Eles comem as frutas que crescem em nossas terras.
Catarina olha pra trás e vê as mãos dos mais velhos e a boca dos mais novos sujas da poupa das frutas.
- Nós só comemos as frutas deles por que nossa plantação é sempre destruída toda as vezes que eles saem pra caçar, disse o monstro do topete engraçado.
Catarina volta para o grande olho vermelho.
- Isso é verdade?
- Esse assunto não te interessa garota. Saia do meu caminho. Uma garra tenta acerta-la, mas Catarina é puxada pra trás pelo Laranja. Ao ser puxada ela se desequilibra e começa a cair, mas logo é reequilibrada pelo Zé, que se coloca a frente dela, protegendo-a.
Pela primeira vez, alguém que não era da sua família, se mostrava preocupado com ela. Se mostrava ao lado dela e não apontando os dedos e tirando sarro de sua aparência.
- Nós vamos derrubar essas paredes e vamos capturar todos vocês, disse o olhos vermelhos.
Os chacoalhões aumentavam e aumentavam. Todos ali se abraçaram esperando o momento que eles derrubariam uma das árvores e pegariam todos.
Foi quando Catarina saiu de trás do Zé, caminhou até a fresta do bosque e deu um baita soco na íris vermelha do grande olho. O berro de dor foi tão intenso que tudo silenciou lá fora. Não se ouvia mais os estrondo dos passos, nem o som das garras rangendo o tronco das árvores. Se ouvia apenas o berro de dor.
O brilho amarelo de Catarina iluminou todo o bosque e ao voltar com o olho ferido para a fresta, a voz de trovão não conseguiu ver mais nada. Tudo estava ofuscado pela luz quente emanada por ela. O grande olho gritou, chamando pela garota.
- Saia dai, eu não vou deixar isso barato. Você vai pagar por isso, sua insolente.
A luz finalmente começou a diminuir, quando um pequeno vulto surgiu a frente do grande olho, e o golpeou novamente. Dessa vez a luz ficou tão poderosa, que um grande faixo de luz saiu de cada pedacinho de árvore arrancado pelas garras. Todas as criaturas do lado de fora do bosque viram seu grande líder gritar de dor 2 vezes e uma enorme energia amarela pulsar de dentro da muralha de madeira, o que fez com que todos fugissem com medo daquela poderosa criatura que ali dentro estava.
Quando o som de lá de fora desapareceu e a luz amarela diminuiu de dentro do bosque, todos os monstrinhos viram Catarina olhando para eles, sorrindo e caminhando em direção a eles.
Todos não acreditaram que ela havia expulsado as grandes sombras que sempre os atormentaram. Ela era a salvadora que eles não acreditavam existir.
- Ela nos salvou, disse um dos monstrinhos novos.
- É nossa princesa, disse outro.
- Nossa princesa amarela, disse o Zé.
- Ah, eu teria expulsado todos, disse o Laranja.
- Claro que sim, retrucou com ar irônico, o topete engraçado.
- Ei, você quer vir com a gente? Perguntou um dos menores.
- Não, eu preciso voltar pra casa. Mas prometo visita-los, respondeu com um sorriso no rosto.
Catarina saiu pela fresta e seguiu pela estrada que veio observando a grande Mariposa. Correu até chegar em casa e ir direto pro seu quarto. Enquanto tomava banho sua mãe avisou que o jantar estava pronto. Ao descer ela estranhou o sorriso no rosto de Catarina, coisa que não via há muito tempo.
No dia seguinte ela foi para a escola e as mesmas brincadeiras de mal gosto foram feitas com ela. O mesmo garoto de 9 anos roubou seu lanche e ela foi para o banheiro para chorar. Só que chegando lá ela não chorou. Ela se lembrou da incrível aventura que viveu no dia anterior.
Ela rodou o bairro inteiro procurando a estrada que a Mariposa havia percorrido. A saudade que ela sentida do Zé, do Topete engraçado, dos menores e até do Laranja só aumentava.
Na tarde daquela mesma semana sua mãe chegou com compras que havia feito na drogaria da rua de trás. Catarina viu a caixa do remédio. Ela pegou uma cartela escondida e subiu para o quarto. Tomou um comprimido e pensou: “já que não consigo lembrar do caminho pra ver meus amigos, que pelo menos posso sonhar com eles”.
Ela acordou no meio do bosque. Ele estava todo iluminado. As arvores não estavam mais uma ao lado da outra mas sim espalhadas por todo o campo. Todas as criaturas estavam olhando para ela enquanto ela bocejava.
- O que houve com o Muro que protegia vocês?
- As sombras nunca mais voltaram desde que você foi e embora. Com isso as árvores não precisam mais nos proteger, disse o Zé com um sorriso no rosto.
Eles passaram o dia todo juntos, brincando, comendo tortas, bolos, geleias e pães deliciosos. Correram pra cima e pra baixo até não ter mais energia pra ficar de pé e caíram no sono no gramado cheio de margaridas.
Catarina acordou no meio da madrugada, sem entender nada. Viu a cartela de remédios sobre o criado mundo e logo imaginou que os remédios eram o caminho para o bosque. Ela não sabia se aquilo era apenas um sonhos ou se ela realmente atravessa para outro lugar. Um lugar melhor e com pessoas que ela amava e que a amavam como ela era. Catarina tirou os outros 7 comprimidos da cartela e tomou com meio copo de água que estava sobre o móvel.
Catarina acordou na sombra de uma das árvores, onde todos os monstrinhos olhavam pra ela, felizes por a terem por perto. Uma das criaturas trouxe um vestido lindo e um par de sandálias.
- Fiz pra você.
- Pra mim? Ela respondeu.
- Sim. Já que você vai morar com a gente, é bom que fique confortável com essas sandálias.
- Obrigada, respondeu abraçando a criatura.
Todos começaram a enche-la de presentes. Vestidos de algodão, bonecas de palha com roupas de seda, colares de casca de árvore com pedras dos riachos. Catarina foi em direção ao Laranja e lhe deu um abraço, que lhe abraçou de volta.
Catarina nunca mais foi vista na escola. As crianças que tiravam sarro da cara dela mal perceberam sua falta. Não que Catarina não imaginasse que isso iria acontecer, ela só não se importava mais com ninguém daquele lugar.
- Onde eu estou, ela perguntou?
- Onde você sempre desejou estar, respondeu o Laranja.
Coisas que li por aqui e vi por aí na última semana
Jacquemus e sua mãe suficientemente boa
Ana Mattioni escreveu um texto lindíssimo sobre a campanha da Jacquemus e sua nova bolsa. A medida que o fim de ano chega eu venho sentindo mais e mais saudades da minha mãe (ela amava essa época do ano) e esse texto me trouxe uma a certeza do quanto ela era foda em cuidar de tudo dentro da sua rotina.
Tudo sobre minha mãe
Gabriel Trigueiro na nova edição do Nada de Errado Nisso me arrancou lágrimas com mais um texto belíssimo sobre mãe e perda.
Oasis é a prova que um tempo mais simples é possível
Ciro Hamen falando sobre um dos shows que eu mais queria ter ido na vida
