A ressaca da felicidade
É tipo um rebote do seu cérebro quando você permite que ele se sinta bem 100% do tempo, mesmo que por pouco tempo
Sei lá, vontade de ouvir essa musica e pedalar por aí de madrugada
Tô eu sentado numa lavanderia de autoatendimento sentindo um vazio, um incomodo meio inexplicável e confuso. Entre ciclos de roupa de cama, cuecas e meias, a memória traz lembranças de um fim de semana incrível. Isso também rola com você? No sábado foi aniversário da minha namorada, amigos dela, meus, nossos, dividindo frituras numa mesa de bar, contando histórias. Prova isso aqui, tá ridículo de bom. A noite tá ótima. Não tá muito quente. Zero frio. Flashs de uma câmera descartável registram caretas espontâneas. Selfies que te cegam por 3 segundos trazem gargalhadas e o som da manivela que puxa o próximo filme. Recebi as fotos, ficaram ótimas. Sobe o cheiro de amaciante da máquina de lavar. Vou recarregar meus créditos pra secar a próxima rodada. Aquele fininho forte gira em todas as rodas de conversa. A risada sai mais fácil. De repente o medo do futuro e a vergonha do falhar na vida não existem. Então tá combinado, carnaval em BH ano que vem. Apitou. As máquinas dessa lavanderia apitam três vezes pra depois destravar a porta. Destravou. No domingo a gente acorda. Café preto, pão na chapa com manteiga e mel. Crostinha. Garoa lá fora e uma leve ressaca cutuca a cabeça. Boca seca. Andamos pelo Centro, Liberdade. Paramos numa porta, uma bandeja com 6 pães chineses assados no vapor com carne de porco vermelho agridoce, por favor. E aí, você falou sério sobre BH? Não sei, não iriamos pra Salvador em abril? Precisamos fazer as contas. Quarenta e cinco minutos é o tempo da secadora. Ok. E segue essa melancolia estranha, como se aquilo tivesse sido os últimos momentos de alegria das vidas daquelas pessoas, da minha, ou como se eu não fosse vê-las nunca mais. Quando criança eu me sentia assim no dia seguinte ao voltar da praia ou no dia seguinte da noite de natal na casa dos meus tios. É meio como uma ressaca da felicidade. A gente anda até o café de uns amigos. Lugar cheio, alguns rostos de ontem estão por lá. Flat White, coado do dia, torrado pela Clara, prova o queijo quente com queijo tulha e cebola do cozinheiro convidado da semana. Come o brownie. O que é esse brownie? Tu provou? Pede o cappuccino do adeus. Volta pra casa andando, falando do fim de semana, programando o próximo. A secadora apita. Tem três calcinhas e um par de meias nas minhas coisas. Alguém esqueceu no cesto e eu também não vi antes. Dobra as roupas de cama com um nó na garganta, uma apatia. Vontade de chegar em casa e me enfiar no quarto e ouvir o Mezzanine no escuro igual eu fazia aos quatorze anos. É uma sensação parecida com que você sente no último dia de férias, já em casa, após 13 dias vivendo como turista em outra cidade. É a mesma sensação que você sentia no domingo a noite quando o Fantástico começava e você sentia essa tristeza mesmo após passar o dia jogando bola na rua e almoçando o macarrão com frango assado da sua mãe. É meio como uma ressaca da felicidade mesmo.


Eu sinto muito isso também. Uma sensação maluca de felicidade pelo rolê ter sido ótimo e ter pessoas tão queridas próximas, mas ao mesmo tempo um frio na barriga, ou seila, um choque de realidade que todo dia não é igual aquele. Não que precise ser, mas uma ânsia por não deixar tudo aquilo morrer ou distanciar no dia a dia.
Ótimo texto, como sempre