Tropa do fecha
Já imaginou se a parte mais pesada do seu trampo ficasse pra hora final?
Eu sempre preferi trabalhar a noite nos restaurantes. Gosto do ritmo. Gosto que o volume de trabalho é maior. Isso faz a hora voar e tu vivência mil coisas. É meio como um intensivão de cozinha. Se tu é Freela você vai aprender a montagem dos pratos, a ordem das coisas, as praças daquela cozinha, tudo ali, na hora, com a comandeira cuspindo papel e alguém cantando pedidos. Sempre preferi esse caos do turno da noite.
Mas nem só de correria boa e resenhas a base de long necks geladas no meio fio do restaurante se vive a “turma do fecha”. Existe O FECHA.
No fecha tu precisa lavar absolutamente tudo que foi usado pelo turno da noite e sobrou alguma coisa do turno do dia. Agora imagina que você vai fazer isso com aquele corte no dedo que deu limpando peixe com uma faca cega ou aquela queimadura no ante braço feita pelo vapor da panela que estava na boca da frente, enquanto tu mexia na panela de traz (na correria às vezes tu troca “leves” queimadura por organização das panelas que devem ficar na frente ou atras). E você faz isso depois de 8, 10 horas em pé, correndo pra lá e pra cá, querendo um banho quente e sua cama.
Mas não tem muito pra onde correr, o fecha é implacável. Ele tem que acontecer todas as noites.
Então é pegar uma bucha, um pote plástico que antes tinha alguma coisa picada, encher de água, detergente e esfregar balcão, portas, paredes, grades, fogão, filtro de coifa, lavar cada peça da praça, cada potinho, prato, copo, talher, GN. Não pode deixar nada sem lavar.
E mais louça chega do salão e pessoas perguntam se sobrou alguma coisa pra elas beliscarem. “Não tem uma porção incompleta de arancini aí, não? Uma raspinha de escabeche pra gente passar um pãozinho?”
Você faz, em troca de bebidas ou um tabaco bolado pelos garçons, mas faz enquanto esfrega outras coisas.
E enquanto você limpa, outras pessoas também limpam e o chão da cozinha vira aquele pântano, uma mistura de restos de comida que estavam na bancada com detergente.
Ai você enxágua tudo. Enche tigelas ou baldes de água e joga sobre os balcões e geladeiras horizontais e depois vem com um rodinho pra puxar essa água que cai no pântano. Nessa hora você vê o pessoal do salão saindo trocado do vestiário, todo mundo se cumprimentando e desejando bom descanso.
Hora do perfex pra deixar tudo seco. Não pode esquecer das borrachas das portas das geladeiras.
Pronto, agora é hora do chão. Arrasta fogão, forno combinado, esfrega tudo ali atrás, esfrega o chão enquanto alguém joga água na parte de trás que você já passou. Puxa com rodo. Puxa bem pro único maldito ralo que existe no chão da cozinha. Chão esse torto, então a água se acumula do outro lado do ralo.
Puxa, puxa, empurra de volta as coisas pro lugar. Agora sim acabou. Agora é tirar os lixos, dar alguns goles numa Heineken gelada, lembrar que amanhã precisa fazer demi-glace e ir pra casa jantar alguma coisa antes de dormir.


Parece uma rotina agoniante e ao mesmo tempo apaixonante
Parece uma rotina agoniante e ao mesmo tempo apaixonante